quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Jusfilosofia, causas e consequências da minoração deste auditório.

Ao versar sobre filosofia, geralmente observa-se certa aversão, tanto por parte de acadêmicos quanto por parte da população em geral. Esta “mistificação” da filosofia é prejudicial principalmente no ambiente acadêmico.

Filosofia é a capacidade reflexiva e descritiva do mundo e do ser humano por parte deste; é a natural avidez humana por conhecimento. Afirma Aristóteles, todos os homens desejam por natureza o conhecimento.

O principal objetivo da filosofia é obter respostas. Para se obter as respostas certas, faz-se necessário formular perguntas certas. Nenhuma resposta precede a sua respectiva pergunta, por sua vez, as perguntas nascem do saber filosófico, da prática reflexiva, do questionamento incessante ou usando a própria raiz do termo, as perguntas nascem da amizade pelo saber, o ato de perguntar é intrínseco ao filósofo.

Quanto ao universo jurídico, essencialmente voltado à sociabilidade humana, encontramos a chamada Jusfilosofia, por ser um ramo filosófico esta envolta em perguntas e o mais importante, as respostas obtidas no mundo jurídico incidem perpendicularmente sobre a vida social. Eduardo Bittar e Guilherme de Almeida sintetizam a importância da jusfilosofia dizendo: "A filosofia do direito é, em meio ao emaranhado das contribuições cientificas do direito a proposta de investigação que valoriza a abstração conceitual, servindo de reflexão crítica, engajada e dialética sobre as construções jurídicas, sobre os discursos jurídicos, sobre as práticas jurídicas, sobre os fatos e as normas jurídicas. Por sua proposta mais aberta, livre das amarras do direito vigente, livre dos pré-conceitos contidos na legislação positiva, descompromissada com a moral predominante ou com os hábitos sociais majoritários, funciona como escora reflexiva das ciências jurídicas."

Tendo em vista esta importância questiona-se, quais as causas da minoração do auditório da Jusfilosofia, indo mais além, quais seriam as causas da rejeição da própria filosofia?

A resposta desta indagação apresenta duas faces. Os referidos autores citados anteriormente apresentam uma das faces em questão: "Desde longa data a filosofia passou a caminhar em dissintonia com os reclamos do senso comum. Mais do que isso, em função do grande grau de tecnicismo e estilismo, a própria linguagem filosófica tornou-se inacessível aos leitores não especializados e/ou familiarizados com as nuanças filosóficas." Arrisca-se a dizer que a própria vaidade da filosofia em tecer discursos basicamente técnicos, com linguagem rebuscada e verborrágica, voltada a si própria, culmina em afastar, ou melhor, rejeitar a simplicidade de pensamento e da descrição. Com isso a filosofia rejeita sua essência, afasta-se de seu intento e entra em vicioso circulo de acepções distante daquele a qual deveria ser destinada, o próprio homem.

A outra face da minoração de auditório da filosofia se apresenta pela própria sociedade, que se encontra viciada por padrões de consumo, fruto das políticas de mercado existentes. Boa parte da população é dependente do ato consumista e vítima da alienação causada pela manipulação das massas por parte da lógica capitalista desvirtuada. O pensar e a filosofia não se enquadram no contexto das políticas mercantis, a filosofia não é comercial, não gera expressivos dividendos capitais, principalmente, não é objeto de compra e venda.

São passíveis de entendimento as razões que direcionam a população em geral a viver de forma alienada. Justamente pela carência de conhecimento, entende-se o porquê da facilidade de manipulação desta massa. Contudo, esta alienação não se resume aos indivíduos distantes do conhecimento, o referido movimento se faz presente, inclusive, nas academias, onde o conhecimento alça vôo, ao menos deveria alçar vôo livre.

A miopia de muitos acadêmicos e profissionais pode ser explicada, pela crença exacerbada em utilitários tecnológicos, que prometem facilidades e comprometem a independência do exercício do pensamento. Justamente essa arma de sedução é o que garante a permanência deste ciclo de manipulação.

O indivíduo seduzido pelas facilidades tecnológicas, envolto em falsa sensação de saciedade se distancia dos livros, do exercício das exaustivas técnicas de aprendizado, as quais considera antiquadas e ultrapassadas. Fantoche se torna de sua própria egocentria.

Alguém a qualquer tempo viu algum intelectual, individuo de sucesso, ou alguém que mudou o mundo e que não era apaixonado pela leitura, que não estudava ou que não se indagava a respeito de seu mundo? Estes mesmos indivíduos se conformaram com os limites impostos pelas estruturas reinantes em suas respectivas épocas? Mesmo o maior expoente da informatização no mundo, o multibilionário Bill Gates afirma: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.” Eis aqui o cerne da questão, o afastamento do conhecimento por parte da população fomenta a alienação e a exploração, tornando a filosofia, o saber, o exercício do pensamento uma tarefa rústica e ultrapassada, distorcendo sua real importância.

Daniel Albherto Gabiatti.

*Texto que apresentei no XI Concurso de Oratória do Curso de Direito da UNOESC Campus Xanxerê, no dia 04/11/09.

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